Quando falamos em inovação, você pensa em quê? Para muitos, esta palavra está ligada diretamente à tecnologia. A realidade é que o conceito é bem mais amplo do que temos conhecimento. Atualmente, existe o Design Thinking, ou seja, o design é tratado como modelo de gestão.

Denise Eler é percussora deste tipo de consultoria no Brasil. Em parceria com as empresas, ela cria projetos e programas para o desenvolvimento de competências pessoais relacionadas a criatividade e inovação. Denise é formada em Designer pela Estadual de Minas Gerais – UEMG, especialista em Gestão Estratégica da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é mestre em Educação Tecnológica pelo CEFET/MG. Atualmente, é professora universitária e sócia da Driven – Design Intelligence, que faz consultoria para Inovação em produtos, serviços e negócios. Entre os seus clientes estão grandes indústrias do setor automobilístico, siderúrgica, além do Sebrae-MG.

Pela sua aproximação com o mercado e trabalho e o mundo acadêmico, a convidamos para uma entrevista que nos revela que inovação e criatividade são elementos que deveriam fazer parte das nossas vidas em todas as fases.

1.     Você diz que inovação não é um bicho de sete cabeças, mas o que percebemos é que pessoas qualificadas e até mesmo empresas têm dificuldades em definir inovação. Afinal, o que é isso?

Inovação é o resultado de um processo criativo que culmina na geração de valor para um negócio.  O conceito de “valor” é variável. Em uma dada empresa pode ser conseguir mais clientes; em outra, clientes novos ou mesmo retenção dos clientes atuais. Não é necessariamente um artefato tecnológico. Pode ser um modo de pensar que gera um novo processo de fazer algo. Inovação está na moda porque o progresso tecnológico dos últimos séculos democratizou os processos de produção. Há muita oferta de produtos e pouca diferenciação. Além disso, esta oferta é global, gerando uma hipercompetitividade entre as empresas.

2.     Quando se fala em inovação, nós pensamos logo na tecnológica. Mas você mostra que é mais do que isso. Quais são os tipos de inovação?

É possível inovar em qualquer área e em graus diferentes de impacto. Fala-se em inovação tecnológica como mais freqüência do que em inovação conceitual. Esta seria uma nova forma de pensar, que não, necessariamente, envolve a invenção de um novo artefato tecnológico.

O Branding é um tipo de inovação conceitual que transforma completamente a forma de se gerir um negócio. O sistema “Just-in-time” da Toyota foi uma inovação nos processos produtivos, focada na obtenção de máxima qualidade dos produtos. A Google inovou na gestão de talentos permitindo que 20% do tempo de seus colaboradores trabalhem em projetos próprios. A “Fruto do Brasil” (antes Frutos do Cerrado) inovou ao explorar os sabores “exóticos” das frutas brasileiras em sorvetes e picolés. Inovações também podem ser incrementais (melhorar o que existe) ou disruptivas (criar ou transformar radicalmente um mercado). Nintendo Wii foi um produto disruptivo. Kinect foi incremental.

3.     As pessoas em empresas ainda pensam “dentro da caixa”? O que está faltando para que boas ideias se transformem em ideias inovadoras?

Basicamente duas coisas. Primeiro, as pessoas precisam recuperar a fé na sua criatividade. Durante muito tempo, criatividade foi responsabilidade de designers, artistas, publicitários e crianças. Depois, deve-se entender que existe um processo que conduz a inovação. Não é mágica. Parte-se de ideias para chegar a uma nova realidade. Isto exige tempo, riscos, e ousadia, metodologia, investimento. Ou seja, sem idéias não existe inovação, mas ideias são a ponta do iceberg. O processo de inovção é um processo de aprendizagem.

4.     Google, Facebook e Apple são algumas das empresas que servem de exemplo em todo o mundo quando o assunto é inovação. De que forma outras instituições podem se espelhar no exemplo dessas?

Google, Facebook , Apple e Amazon são consideradas as 4 Fantásticas (Fab4) do mercado. O que elas tem em comum?  Conhecem profundamente seus clientes e não medem esforços para oferecer a experiência perfeita de consumo de seus serviços, mesmo que isto signifique investir em negócios que não são suas áreas core de expertise. Estas empresas não estão presas ao que faziam de melhor no passado: ferramenta de busca, rede social, computador pessoal e vender livros.  Mas para chegar aqui, todas correram muitos riscos e fracassaram algumas vezes.

5.     Em Minas e no Brasil, o que ainda precisamos melhorar no quesito inovação?

Somos criativos e isto é importantíssimo. Precisamos de processos, de profissionalismo, de visão de negócios. As escolas brasileiras formam empregados, não empreendedores.

6.     Qual é a ligação entre inovação e design?

Design, antes de tudo, é uma visão de mundo orientada pela inovação. Um designer é orientado a criar novas soluções que sejam factíveis tecnologicamente, viáveis economicamente e desejáveis pelas pessoas. Ou seja, a abordagem de design (o Design Thinking) consegue conciliar aspectos técnicos, financeiros e emocionais para produzir valor para a sociedade.

7.     Você também atua com o Design Thinking (em Português, o Design de Pensamento, numa tradução literal). Na apresentação do seu site, diz que à medida que nos afastando da Era Industrial, novas demandas foram criadas para os designers. Com isso surgiu o Design de Serviços e o Design da Gestão. Que conceitos são estes, tendo em vista que design, a princípio, está ligado a ideia de projetos, de formatos de objetos e marcas?

Com a crise financeira de 2008, escolas de negócios conceituadas e grandes empresas tiveram de reconhecer que seu modelo de pensamento industrial não produz mais os resultados esperados. Elas perceberam que a complexidade contemporânea exige uma forma de pensar mais próxima do que era praticado durante o Renascimento, quando razão e emoção, matemática e poesia, tinham os mesmos pesos na formação das pessoas. As Escolas de Design oferecem uma formação mais próxima deste ideal. Desde então, o interesse pelo mindset de design tem aumentado. Empresas como Procter&Gamble, Positivo, Isvor Fiat são cases de sucesso. O Design de Serviços é aplicação das metodologias de design na inovação em serviços. Já o Design de Gestão ou de Negócios é o uso do mindset para inovar em Gestão e também para gerar novos negócios orientados pelos desejos das pessoas, não pela capacidade ou competência produtiva das empresas.

8.     Como estão as pesquisas científicas ligadas a esses novos conceitos de designer?

Há muitos livros disponíveis em inglês. Poucos em português. Há mais cases de sucessos documentados do que dissertações de mestrado ou doutorado, como era de se esperar. Uma boa fonte é o site do DMIhttp://www.dmi.org/dmi/html/index.htm e o SDNhttp://www.service-design-network.org/, além do site da IDEO WWW.ideo.com e do Roger Martinhttp://rogerlmartin.com/

9.     Você é uma profissional de mercado, mas também atua na área acadêmica. Como inserir conhecimentos teóricos no mundo dos negócios. Como fazer isso? É um desafio?

Na verdade, o mercado está carente de fundamentação teórica, desde que esta seja traduzida para seus objetivos e gere resultados.  Acho que este é o segredo do meu trabalho: fazer esta ponte entre o pensamento e a prática. Quem consegue fazer isso tem trabalho garantido.

http://fapemig.wordpress.com/2011/11/15/inovacao-vai-alem-da-tecnologia/