Durante os últimos dois anos tenho me revesado entre a academia e a consultoria de empresas, em especial o Isvor (o que significa atender a todas as empresas do Grupo Fiat). Antes eu usava a metáfora da polinização cruzada para descrever meu trabalho, mas meu amigo Marcos me deu uma imagem muito mais visceral e apropriada: a transfusão sanguínea.

A cada palestra cresce o número de pessoas interessadas no assunto e os convites se multiplicam para falar para públicos cada vez mais distintos. Engenheiros, profissionais de RH, gestores e diretores, não há resistência quando falo de como o DT pode ser um driver para qualquer programa de inovação. O que me chama a atenção e me deixa chateada (confesso) é o descaso dos designers, por incrível que pareça.  Mas o fenômeno não é brasileiro.

Vários Fóruns estrangeiros já discutiram o desconforto que o termo causa em alguns grupos de designers. Discute-se também se o DT vai se estabelecer como uma disciplina dos cursos de administração e economia; se será incluída nos cursos de Graduação em Design na forma de Design de Negócios e Design de Serviços, ou se será mais uma opção de Pós-Graduação. Pelo movimento das coisas, parece que a primeira opção está mais próxima da realidade. Mesmo porque, não faz sentido um Curso de Graduação oferecer DT como disciplina se este é o próprio modo de pensar dos designers (ou não é?). O que quero dizer é que os Cursos de Graduação parecem ser os últimos a entender o que está acontecendo.

Hoje ministro disciplinas de DT em dois cursos de Especialização: Design de Interação (onde a metodologia do design centrado no usuário impera e é questionada por mim) e Gestão de Marcas (onde abordo a relação DT, Branding e Inovação). Na graduação, por enquanto, abordo Design de Serviços e Design de Negócios de forma leve nas disciplinas que ministro. E os designers mais novos tem se mostrado muito mais receptivos ao assunto.

Minha explicação para o fato: DT, seja aplicado a Serviços ou Estratégias Corporativas exige o desenvolvimento de competências que não sao inerentes ao designers. Há 12  anos insisto para que meus alunos não limitem suas leituras a livros de design e catálogos de Bienais. É preciso ter gosto pela economia e pela gestão.  É preciso VOCAÇÃO para trabalhar no campo das estratégias de negócio, não apenas vontade. Depois da vocação, vem a formação das competências. Designers seniors transitam para o DT com facilidade porque há anos desenvolveram um tipo de relacionamento com seus clientes que vai além do design operacional. Estes designers são chamados quando há um mal sintoma no negócio do cliente, não um briefing. Você sabe que se tornou um parceiro estratégico quando é convidado para co-criar o briefing.

Eu amei um artigo (nao encontro o link, mas um post que comenta o artigo está aqui) do Geoff Mulgan no DMI, em que ele afirma que os designers estão assumindo compromissos sem a devida competência para lidar com os problemas que estão fora de sua esfera tradicional de atuação. Foi um balde de água fria na platéia entusiasta do DT.  É preciso ir com calma, responsabilidade e consistência. O Design Thinking não é uma moda. Precisamos de uma filial do DMI no Brasil ou criarmos uma instituição que nos ajude a catalisar a compreensão do DT por aqui. Algo que atenda a realidade dos consultores de negócios, e não de agência de design, como já existe.

No mais, sigo com minhas transfusões diárias.